7 de mar de 2012

“Linguagem além dos sinais, percepção além da forma”

* "Bosque das Cerejeiras - Parque do Carmo"

“Nada no mundo da forma é permanente.
A aceitação da impermanência da forma faz revelar a essência que a sustenta para cumprir o seu propósito.”
(Diário de Construção do Espaço Matrix)


    “Todas são... PERFEITAS...”, essa foi a última fala d’“O Último Samurai” no filme de mesmo nome, representado pelo ator Ken Watanabe, ao se reportar às flores de cerejeira - que voavam, desprendidas e livres ao vento - no momento de seu último suspiro quando encontrara a resposta para uma das questões reflexivas em sua experiência de vida:

"A flor perfeita e rara, podemos esperar a vida toda para encontrá-la e mesmo assim não seria um desperdício."

    Divina forma poética para retratar a existência da essência perene além da aparência de toda forma.

Mas, afinal, não precisamos morrer na forma para compreender que, em essência, também somos todos perfeitos, independentemente dos invólucros que trouxemos para serem lapidados na vida.

    Cada um de nós, na transitoriedade da vida na Terra, chega com desafios diversos, contudo, existe um objetivo que nos é único: revelar a perfeição da nossa essência divina, na forma. 

    E o que define a conclusão desse propósito em êxito é como cada um de nós, com o nosso livre arbítrio, escolhe viver sua própria vida - nossa exclusiva responsabilidade.

    KOKORO é uma das qualidades que provém da cultura oriental que pode nos orientar nessa empreitada - e, para a qual há pouco tempo despertei em entendimento buscando, a partir de então, colocá-la em prática como norteador de minhas atitudes, ainda que não seja fácil tarefa. 

    E, ainda que eu não saiba traduzi-la, dentro da minha percepção, o termo Kokoro – soa como algo intrínseco “aqui, dentro do coração”; e, no sentido figurado representa a sensibilidade que faz enxergar além do próprio olhar e consegue sentir através da lente do outro. 

    Pois, em nossa ilusória solidão nos tornamos, muitas vezes, tão egocêntricos com o nosso próprio olhar, pensar e sentir, que perdemos a chance de revelar a Unidade, diante de uma relação oportuna.
Onde continuaremos em nossa solidão, enquanto ignorarmos as relações, exatamente como se apresentam. Enquanto não estivermos disponíveis a exercer o kokoro que “promove a sensibilidade suficiente para nos fazer sair de ‘si mesmo’, de nossas necessidades pessoais e nos colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada”(*) .

Se pararmos apenas um instante para uma reflexão interior, perceberemos o quanto deixamos de crescer e evoluir, por ainda permitirmos ser movidos pelas conveniências ou nossas fragilidades ao invés de nos render às nossas verdades mais internas que são, essencialmente: amor, sabedoria e discernimento nos guiando ao poder de realizar.
Pois quando somos capazes de olhar e acessar essa perfeição que reside dentro de nós como fator intrínseco, mais facilmente seremos capazes de olhar essa mesma perfeição por detrás da forma em cada pessoa ou situação, suprindo as reais necessidades em beneficio do todo.

E, quanto de nossa atenção é dispensada, verdadeiramente, às nossas reais necessidades e, também às do ‘outro’?

Quando percebemos as ressonâncias, tanto da dor quanto do amor ‘alheios’, sem identificações que nos aprisionem, desvendamos os véus que encobrem nossos verdadeiros sentimentos diante daquelas situações, fazendo emergir ações pautadas no discernimento e na criatividade que tudo organiza.

Então, nossas verdadeiras necessidades são acolhidas, a partir do momento em que nos questionamos: “O que essa pessoa ou essa situação vêm me revelar? Não apenas sobre ela ou o outro, mas principalmente sobre mim mesmo?”
E, respondendo melhor às nossas próprias necessidades, aprimoramos nossos olhos, ouvidos e coração para atender melhor às necessidades do próximo em nossas interações relacionais.

Assim o kokoro vai desabrochando no nosso modo de caminhar pela vida, facilitando o cumprimento da nossa meta em manifestar a perfeição - nossa essência divina – na Terra, quando passamos a compreender “a linguagem além dos sinais, percepção além da forma”. 

Parafraseando a Monja Coen: “Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas”(*), pois grande parte desse despertar para um novo entendimento me remete às minhas raízes orientais, trazida à tona pelo privilégio do convívio com meus avós – maternos e paternos, especialmente a minha avó materna, minha “última referência mais ancestral”, a quem sou grata e reverencio, bem como a toda forma de vida, em sua mais “pura perfeição” – essência Divina.

Após o tsunami de 11 de março, trecho de um relato de Monja Coen, sobre o Japão:
“Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.
Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer: todas.  Todas eram e são pessoas de meu conhecimento.  Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência.  Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.
Mãos em prece (gassho)
Monja Coen”

(*)JAPÃO, por Monja Coen – em 11ª Meditação – Oportunidades de Prática

* Créditos da Foto: Sueli Nonaka

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